Vedete no teatro de revista, fez carreira percorrendo primeiro os teatros da Praça Tiradentes, Dercy (Heloísa Périssé/Fafy Siqueira) tinha verdadeiro horror que a filha Decimar (Samara Felippo), fruto de um relacionamento com um homem casado se encantasse também pelo mundo das artes e é justamente esse lado mais recatado que deu o tom surpreendente a série. Em principio tudo o que a grande maioria das pessoas lembra sobre a atriz era justamente a faceta cômica, regada a palavrões e alfinetadas comuns em seu repertório. É claro que essa característica esteve presente em todo o momento, no entanto é a outra faceta de mãe de família e trabalhadora voraz que chamou atenção. Com base em seu próprio livro, (a biografia ‘Dercy – de Cabo a Rabo’, escrita cerca de treze anos antes), Maria Adelaide bebeu em sua fonte de inspiração e conseguiu retratar com delicadeza e competência uma mulher do interior que foge da violência doméstica e pobreza para conquistar o afeto e respeito que não conseguira dentro dela casa.
Pouco a pouco o telespectador vai acompanhando os sacrifícios que a Dercy mãe se submeteu para garantir um ‘bom casamento’ para a filha Decimar, logo cedo entregue a irmã para ser cuidada. Dercy não foi uma mulher feliz em seus relacionamentos, ao menos na versão da série era tudo muito pouco romanceado e afetado, dessa forma não chegava a ser um martírio a atriz ficar sozinha em consequência dos picaretas que conheceu ao longo da vida. Em prol dos padrões morais que submetia a criação da filha, em contraponto a vida que ela mesma vivia, essas múltiplas Dercys afloram traços desconhecidos e culminam na melhor cena de toda a série, quando a comediante de frente para a traição do então marido Augusto, toca ele para correr e se ajoelha aos pés da amante do sujeito e suplica para ela deixá-lo em paz. Porque ela precisava dele para levar a filha ao altar. Ali, fica claro que para Dercy mãe é uma questão de honra que sua filha seja levada ao altar da forma mais tradicional possível, para a Dercy artista conseguir algum respeito seja por parte dela mesma, seja por parte dos outros. O casamento não deu certo, claro e Dercy mãe mesmo assim casou a filha e conseguiu o que queria.
O destaque da trama vai para Heloísa Périssé. Associada sempre aos núcleos cômicos, a atriz conseguiu defender a fase mais complicada da personagem até seus sessenta anos com forte carga dramática sem se tornar caricata, o que poderia facilmente acontecer devido a própria maneira que Dercy trabalhava em si. A direção, figurino e os cenários só jogaram a favor da produção que teve um resultado muito legal como um todo. Na final se provou correta a decisão de resumir a história em poucos capítulos a fim de evitar repetições na trama. A minissérie foi curta, instrutiva, divertida, bem acabada e uma bela homenagem a uma comediante que deixou para o país um histórico de humor como poucos. Viva Dercy Gonçalves!
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